Margem abaixo de 25% não é negócio. É aposta
No papel, 15% de lucro parece bom. Na obra, 15% some antes da entrega das chaves.
Uma vez analisei um empreendimento que, na conta final, fechava em 13,6% de margem. No papel, dava lucro. Na minha régua, não passava.
A minha regra é simples: se deu 25%, avança. Se não deu, descarta.
Por que 25, se o mercado aceita menos
Porque eu conheço o histórico das incorporadoras. A margem do estudo é a margem do melhor cenário. E o melhor cenário quase nunca acontece.
As referências de mercado são mais baixas do que a minha. Um estudo acadêmico da PUC-Rio usa como indicador de sucesso um lucro de pelo menos 20% do valor de venda. E é raro um projeto sair do papel prevendo menos de 15%.
Eu peço 25% porque a diferença entre 15 e 25 não é ganância. É a folga.
O que come a margem no caminho
- Juro alto: o dinheiro da obra custa todo mês.
- Atraso: cada mês a mais de obra é um mês a mais de custo fixo.
- Venda lenta: a receita entra depois do previsto, e a despesa não espera.
- Distrato: comprador que desiste e devolve a unidade.
- Material que sobe de preço no meio da obra.
Não sou só eu que digo. Uma análise publicada em 2026 lista os mesmos vilões: juros, cronograma não cumprido, retrabalho e insumo que oscila. E os dados da Abrainc e da Fipe mostram distratos equivalentes a 11,4% das vendas, chegando a 17,8% no médio e alto padrão.
Olha o que acontece com uma empresa grande
No primeiro trimestre de 2025, a Cyrela teve margem bruta de 32,5% e margem líquida de 16,8%. Quase metade ficou no caminho, entre despesas, juros e impostos. E é uma das empresas mais bem geridas do país.
Margem de estudo é promessa. Margem de entrega é o que sobra.
A conta com número redondo
Imagina um prédio que vende R$ 100 milhões. Com 25% de margem, o estudo aponta R$ 25 milhões de lucro.
Agora coloca um atraso de seis meses, um custo de obra 5% acima e uma venda mais lenta. É fácil perder 8 a 10 pontos. Quem saiu de 25 chega em 15, e ainda ganha. Quem saiu de 15 chega em 5, e trabalhou três anos de graça.
A régua muda com o padrão
Quando existe outorga para pagar à prefeitura, eu subo a exigência para perto de 30%. E o padrão do produto muda o número: produto econômico gira mais rápido e aceita margem menor, e produto de alto padrão demora mais e precisa de margem maior.
Pega a viabilidade do seu próximo projeto e refaz com três mudanças: obra 5% mais cara, entrega seis meses depois e venda 20% mais lenta. Se o lucro continuar de pé, é negócio. Se sumir, você estava apostando.
A sua margem aguenta o que sempre acontece?
- Indicadores de viabilidade de uma incorporação, capítulo 5 · dissertação, PUC-Rio
- Cyrela: resultado do primeiro trimestre de 2025 · InfoMoney
- Lucratividade das incorporadoras é decidida na execução · André Chaves, Diário do Comércio, 2026
- Indicadores Abrainc/Fipe, dados até março de 2026 · Abrainc e Fipe
- Estudo de viabilidade: o que é e como fazer · Sienge
Quer testar a margem do seu projeto?
Me chama. Eu refaço a sua conta com os cenários que costumam acontecer e te mostro quanto sobra de verdade.
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